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[Resenha] A Pérola Que Rompeu a Concha

em segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018
A Pérola Que Rompeu a Concha
Nadia Hashimi
448 Páginas
Editora Arqueiro

A Pérola Que Rompeu a Concha escrito por Nadia Hashimi traz uma história inspiradora e tocante sobre uma jovem que vive em meio ao governo opressor do Talibã.

Confesso que no momento que iniciei a leitura, pensei que sofreria a cada página, mas não foi isso que aconteceu. A cada detalhe que descobria sobre a cultura e o ambiente em que as protagonistas estavam vivendo, eu ficava ainda mais inspirada diante das dificuldades que surgiam. É uma história intensa, o leitor fica a imaginar que tudo não passa de uma ficção, mas é uma triste realidade que muitas mulheres vivem.

Filhas de um viciado em ópio, Rahima e suas irmãs raramente saem de casa ou vão à escola em meio ao governo opressor do Talibã. Elas até tentaram frequentar a escola, mas os garotos do bairro achavam que era certo persegui-las, como se elas gostassem dessa “atenção”. Para os garotos, era normal perseguir as meninas, como se elas fossem propriedades deles. Como o pai de Rahima não conseguia encontrar uma solução para o problema que as filhas estavam vivendo, proíbe-as de frequentar a escola.

A única esperança das meninas é o antigo costume afegão do bacha posh, que permite à jovem Rahima vestir-se e ser tratada como um garoto até chegar à puberdade, ao período de se casar. Como menino, ela poderá frequentar a escola, ir ao mercado, correr pelas ruas e até sustentar a casa, experimentando um tipo de liberdade antes inimaginável e que vai transformá-la para sempre.

Mas nem tudo dura para sempre, e passado alguns anos, Rahima precisa deixar de ser um garoto para se casar, assim como suas irmãs mais velhas. Tentando resolver o problema de ter muitas filhas na casa, o pai resolve casar as três filhas mais velhas ao mesmo tempo.

A única coisa que consola a jovem Rahima é a história que sua tia conta, sobre a trisavó Shekiba que viveu as mais diversas dificuldades no passado. Shekiba ficou órfã devido a uma epidemia de cólera, salvou-se e construiu uma nova vida de maneira semelhante. A mudança deu início a uma jornada que a levou de uma existência de privações em uma vila rural à opulência do palácio do rei, na efervescente metrópole de Cabul.

Na trama, acompanhamos a situação precária que vive uma mulher na cultura afegã. A autora traz assuntos sobre violência doméstica, consumo de drogas, abuso, casamento infantil, diferença de gêneros e terrorismo. A história é contada pelo ponto de vista de Rahima e também Shekiba, trazendo todo o drama que essas duas protagonistas vivem.

A história mostra com clareza como as mulheres não valem nada em muitos países. No Afeganistão, eles aceitam que as meninas se vistam e se comportem como um menino, mas não aceitam que elas sejam elas mesmas. São criadas para casar, não importa se será a única esposa, ou se será a segunda, terceira, quarta... E para serem bem tratada pela família do marido, elas precisam gerar FILHOS, e não FILHAS. Se gerarem filhas, elas podem ser substituídas por outras esposas. E se gerarem filhos, quanto mais, elas tem um lugar de respeito na família.

Para as mulheres, não existe uma escolha, o direito de ser quem quiserem, de ter opinião, ou falar o que pensam. Se agirem dessa forma, são desrespeitosas, sofrendo as mais diversas agressões físicas. Não é fácil ler isso no livro, e ainda saber que é real, que toda essa diferença acontece ainda hoje.

É um livro intenso, mas inspirador. A trama entrelaça histórias de duas mulheres extraordinárias, corajosas, que desafiaram todas as convenções para seguirem o próprio destino. Não é um livro de leitura fácil, é complicado saber todas as dificuldades que essas mulheres vivem até hoje, mas faz o leitor refletir sobre a liberdade de controlar o próprio destino, de que devemos lutar pelos nossos sonhos, e acreditar que um dia, essa violência com a mulher não existirá mais.


Não existem palavras suficientes para expressar todas as emoções que esse livro transmite. A Pérola que Rompeu a Concha é uma história intensa, maravilhosa, indigesta, inspiradora que vai deixar o leitor sem fala, reflexivo, emocionado. Leitura obrigatória para todos.

Nota:



7 comentários:

  1. Desde que vi o lançamento desse livro imaginei que a história fosse exatamente como descreveu nessa resenha. Fui ler algumas outras criticas e elas tiraram completamente minha vontade de ler a obra, não por serem negativas, mas por conta do olhar crítico de quem estava lendo. A vida lá é dura é revoltante, a autora quer passar isso, mas tbm quer mostrar a força das personagens e a mim faltou sensibilidade de quem leu e resenhou para olhar além das críticas sociais. Espero poder fazer a leitura em breve e confirmar mais uma vez a intensidade que sinto sempre que me deparo com essa obra.



    Raíssa Nantes

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  2. Oi Carla
    Adorei sue post e sua resenha
    Eu AMO histórias assim e já estava super curiosa para ler A Pérola que rompeu a concha. Depois deste post, quero mais ainda!
    Gosto de intercalar estas leituras com outras mais leves.
    Vou ler e depois te conto
    Bjs

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  3. Oie!
    Eu já tinha visto algumas críticas sobre esse livro e fiquei bem curiosa para ler.Sua resenha só reforçou essa curiosidade.
    Eu gosto bastante de livros que retratam outras culturas além da nossa, da Inglesa e da americana. Acho importante que autores mostrem como é em outros lugares e que nem sempre a liberdade que temos aqui é compartilhada por todas as mulheres.

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  4. Olá! Ainda não conhecia esse livro e fiquei bastante interessada pela leitura. Gosto bastante dessa temática. Vou anotar a indicação e espero ter a oportunidade de ler em breve. super bjoo

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  5. Olá!

    Esse livro é lindo! Eu li e me apaixonei pela Rahima, apesar de ter algumas ressalvas quanto à religião e etc, é um livro que todo mundo deve ler. Parabéns pela resenha!

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  6. Olá, ótima sua resenha. Deve ser doloroso ver na história como a realidade das mulheres muçulmanas é difícil. Mas que bom que temos duas personagens que desafiam as regras que lhes são impostas.

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  7. Oi, assim como ocorreu com você, esse livro também me deixou sem palavras, e me marcou muito. Ele traz uma diversidade de reflexões para nós e nos transforma perante a tantas dificuldades.

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